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Rendição


Nós com os pés areiados e úmidos, caminhando a beira mar, seus olhos oscilando a cada fala junto a cada raio de Sol que lhe invadia, eu me perdia no horizonte e voltava a lhe ouvir. Entre trilhos de conchas, histórias de nossas histórias, da fase da conquista ate as bodas. Parece pouco e parece muito, só sei que viveria tudo de novo por você, por nós... Desfilavam-me sorrisos cheios, transbordava-me os olhos das graças, das farsas de outrora, quando tentava fugir de você.
Disse sim à felicidade quando me rendi àquele amor.

Cacos






Sofia tentava de todos os modos me levantar. O coração só chorava, só chorava. Já quis voltar no tempo, já quis não existir mais, já quis tentar esquecer. Fácil falar, fácil aconselhar, fácil apontar os erros para quem está de fora. Só quem tem o coração rasgado sabe sua dor, as lágrimas caídas sabem bem de tudo isso. 

- Vai passar, Sofia, eu sei. Só preciso de tempo.


- Acho que ninguém nunca morreu de amor, disse Sofia, me puxando para o parapeito da janela.

- Olha lá – continuo ela, - olha lá embaixo, sob esse céu que ontem era cinza, as pessoas continuam andando, continuam vivendo apesar dos desamores, apesar  dos desencantos. Elas sabem que é Deus que fez o céu mudar de cor, elas sabem que assim como os dias se renovam o coração em cacos delas também se regenerará.


 BRITO, Emilly

Enlace


Talvez precisássemos de mais noites assim, noites de eterno relógio.
Sentia cada desenrolar dos cabelos que acariciavas à ternura do nosso enlace
Amor, colo, carícia, afago,
numa mesma moldura,
Quando fecho os olhos e me pego longe, é lá que estou, na noite do enlace.

          BRITO, Emilly

Tua Lua.


Toda noite eu padeço mergulhada em sentimentos sob o teto de estrelas.
Porque eu e você somos banhadas as noites pela Lua, somos dignas de pensar com o coração.E aí cabe o céu e as estrelas uma a uma em nossa imensidão.
Desce a razão, desce a serenidade, desce luz, desce a inspiração.
E desce o tapete negro brilhante do quadrado da janela até um outra noite ela brilhar tímida, sob a luz do Sol, novamente e novamente.
E todas a noites é assim, o Sol cansado do ofício recolhe-se ao descanso e vem a Lua que lhe abraça e distribui sua luz ao mundo.
Suspiros de afeto dão a noite seu frescor.
Eu também quero ser tua Lua, teu afago ao término do dia.
Teu colo no teu cansaço
Tua força no esgotamento
Para que todos dias você acorde disposto a brilhar.


Brito, Emilly


A viagem



Uma varanda distante refugiava o corpo e principalmente a mente. Ela precisava estar só para conseguir tracejar e precisava do teto de Deus para definir o traço. A brisa que batia trazia à lembrança dias que eu já havia esquecido. Mas olha, a caixinha cabe muita coisa e rebusca quando quer.

Ela não pode. Não vai parar.

Apenas aceita a companhia do rádio velho. Música situa tanto quanto o silêncio. Viagem profunda em si. Transporta-se mentalmente ao mar. O mar era seu segundo refúgio. Tão ela como onda e tão onda como ela, tão brava e tão acalenta, tentando abraçar pedras, tentando alcançar a encosta.
E não pode. Não vai parar.


BRITO, Emilly

Conte-me sobre Roberta








Conte-me sobre Roberta


Roberta?
Doce mistério.

Roberta é gente forte. Gente que a gente não entende como aguenta as cruzes, de tanto ser rocha para os outros,
fortalece a si mesma. Fico admirada.
mas já vi, Roberta chora, chora de soluçar. Diz que lava a alma. Mas quem não chora? 

Só que gosto mesmo é de ver Roberta vibrando, aquelas pupilas dilatadas de emoção. Às vezes de contentamento alheio, 
a vitória nem precisa ser dela pra ver-lhe vibrar.
E tomava tudo para si, não só essas conquistas, mas tenta estancar as dores, aliviar os fardos.Dos outros.


Da pior situação parece querer arrancar algo novo, algo útil.
Ela tem dessas de querer ser útil.
Roberta cresceu na grande São Paulo, em vida corrida e ruas cheias. Mas, por onde andava observava um à um.
Ia fundo nos olhares, lia cada ruga nova.
Já conheceu de perto o sofrimento, conheceria ele em qualquer lugar.
Imaginava a caminhada daqueles pés de calejo, os dias difíceis.
Ia traduzindo tudo em lição.


Das quedas, chegou à força.
Mas depois que se tornou forte, Roberta, se perdeu na força, sem dosagem,
sem conhecimento do limite.


Viu passar as fases de sua vida e pegou carona.
Vivia entrando no carro da mudança.
E ainda não conhecia o limite.
Dizia ser imune à desistência.
Mesmo sem saber no que ia dar, ia até o fim. Honrava seus compromissos, às vezes nem por ela, 
mas pelo seu instinto doentemente perseverante.
Queria evoluir. Queria ir longe. Mas se atrapalhava a tantos desejos, nunca lhe faltou vontade, isso ela até podia doar de tanto,
e acho que doava, quem anda com Roberta diz que ela contagia.
Desacreditando no acaso, cada linha de história forma um parágrafo decisivo de vida. Pura fé.


Mãezinha já no céu se orgulhara: 'essa minha menina vai longe'.


Quem duvida?


E ela já me é sinônimo de motivação. Conto a todos quem é Roberta.
Todo mundo devia ter um pouco de Roberta. Ou é Roberta que deve ter um pouco de todo mundo?


BRITO, Emilly.