Eu já devia saber. Eu devia saber que besteira minha. Que acúmulo de rugas, de mágoas. Não precisava nada daquilo, não poderia só ver aquilo... Foi uma sexta revoltante. Ao menos, eu haveria classificado assim.
Meu inútil momento de impaciência havia me deixado assim. Cabe muito mais história nessas entrelinhas, mas nada, nada que realmente justificassem toda a revolta.
Adormeci.
Veio o sábado e uma cena me faria repensar em todas as últimas reclamações que tinha proclamado de graça.
Estava sentada na janela do ônibus, um sol forte lá fora e eu a espiar do quadrado de vidro tudo o que se passava do lado de fora. Sem que notassem qual direção, olhava aos lestes e oestes e meus olhos debaixo das lentes negras perceberam o quão tenho sido ingrata.
Vi uma senhora bem senhora, com seus cabelos alvos, vestido leve e pele enrugada, braços magros e um andador onde se apoiara. Ao seu lado um menina, pequena criança de sorriso farto e olhar acolhedor, com seu corpo ainda pequeno de membros inferiores imóveis sob uma cadeira de rodas. Talvez nunca soubera o que era andar, mas mesmo assim, motivava a senhora como ninguém. Via-se o traço de esforço nas veias do vozinha, que tentava se locomover vagarosamente. Mas a menina gritava animadoramente: 'vai vó, você consegue'.
Foi uma questão de segundos.
Foi tocante.
Quantas vezes duvidei da minha força? Quantas vezes reclamei da vida?
Aquela criança me fez vê que nenhuma dificuldade pode me arrancar o sorriso do rosto. Aquela senhora me fez ver o quanto nunca é tarde, o quanto somos fortes nessa vida, que é uma questão de fé e doses de força de vontade.
BRITO, Emilly








