Mostrando postagens com marcador migrante. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador migrante. Mostrar todas as postagens

Itinerante


Olha que já fui mais forte do que pensaria que fosse, já me arrancaram uma vida inteira de terra, mas conheci muita gente boa e degraus de oportunidades e estou aqui não estou? Queria voltar naquelas noites de temporais de choro e me acalmar os soluços para que eu me aviasse que estariam por vir coisas boas.

Aquela ansiedade que me matava. Sofrimento por antecipação. Me chateio quando ponho vírgula onde não tem, quando ciso uma frase, um dia.  Boba, boba. A gente vive em meio a um roseiro e não sabe. Veja que para um cego que tateia uma rosa reconhece a suavidade das suas pétalas porque soubera do arisco dos seus espinhos. Bem assim a vida, somos cegos, não vimos seu começo, não vemos seu fim, e não entendemos do um ao quatro até que se chegue ao cinco. E eu a cada quilômetro que me distanciava da minha história até ali eu rezava, de bochechas irrigadas de lágrimas, rezava. Rezava à um Deus que eu me agarrava sem saber do que Ele me tinha reservado, e rezava como quem quisesse entender e suportar essa lida itinerante. 

Foram dois dias naquele retângulo com rodas, da janela não se entrava brisa, talvez por isso me faltasse o ar no pulmão. Um medo de menina divido no abraço ao urso de pelúcia dado pela vó que despedira em prantos na rodoviária, pois esta fora a última imagem que tivera dela.

Dizem que distância dói. Dói e fere. Quando cicatriza fica uma saudade tão gostosa, tão gostosa. Olha vó, não chore não que eu tô bem; cresci e até engordei, trabalho, namoro e estou para me formar, tô feliz viu... E eu to indo, caminhando no meu roseiro.


BRITO, Emilly

Sem reticências







No dia 26 de Setembro participei da JUVES 2010 em São Bernardo do Campo/SP. Com o tema: " Mudanças climáticas e seus efeitos migratórios " os jovens escalabrinianos foram convidados à pensar um pouco mais sobre a verdade inconveniente do descaso com a natureza.
Falou-se em sustentabilidade, desastres naturais e migrações ... num mundo capitalista, onde se impera o lucro, o estilo de vida do consumismo tem agravado os desastres climáticos, que se tornaram cada vez mais freqüentes. Infelizmente não nos faltam exemplos, o noticiário exibe a natureza revirada, o sofrimento das vítimas, milhares de desabrigados, órfãos, tristeza, dor ...
O culpado? Toda uma sociedade que polui, desmata, usa e abusa dos recursos naturais como se eles fossem infindáveis.
Enquanto isso cada desastre deixa um rastro de vítimas, muitos já não tem mais a pátria pra retornar, porque foi literalmente por água abaixo ou se desmoronou junto com seus sonhos, são milhares de desalojados, inúmeras migrações forçadas.
Estavam presentes haitianos que sentiram a experiência da perda, narrando a dor de perder seus familiares no recente terremoto que resultou em 32 mil vítimas.
Quantas mais famílias serão destruídas? Quantos mais lágrimas terão que cair? Até quando a soberba economia se renderá ao dinheiro? ... já estamos atrasados, todos precisamos acordar para o uso sustentável, para o uso consciente, o que será das próximas gerações? O futuro se constrói no presente. Ou mudamos nosso modo de vida ou esta história não terá reticências.
Foi escolhida até uma música como hino por refletir bem o propósito do tema, a múscia é antiga, mas o apelo é atual:








NATUREZA, ESPELHO DE DEUS ♪

Eu sou a água dos rios das beiras da terra
A dar de beber as sedentas sementes
Eu sou a nascente, o cerrado e a serra

Eu sou o grito de dor da madeira ferida
A relva, a selva, a seiva da vida
Peão boiadeiro que o laço não erra
Eu sou o doce das frutas, a erva que amarga

O quarto de milha e o mangalarga
As águas revoltas são os prantos meus
Quem envenena meus mares, me queima e desmata
Me sangra sem pena, aos poucos me mata
Não vê que eu sou o espelho de Deus

Eu sou a natureza, indefesa, não me trate asim
Eu sou a aguia, a baleia e o angelim
Somos irmãos da terra, pedra, bicho, planta, gente, enfim
Pra que essa vida viva cuida bem de mim

Eu sou o sol das manhã sobre minhas campinas
O frio das neves, as claras colinas
Os pássaros livres, a sombra que resta
Eu sou o bicho do mato, a flor pantaneira

Eu sou a savana, a serpente, a palmeira
O cheiro do verde que vem da floresta
Sou cavaleiro do mundo, eu sou a boiada
Eu sou o estradeiro e o pó da estrada

Sou crença nos olhos dos homens ateus
Quem me devasta, me fere, me caça, me extingue
Me arranca as raizes não deixe que eu vive
Não pode se ver no espelho de Deus

Eu sou a natureza, indefesa, não me trate assim
Eu sou a aguia, a baleia e o angelim
Somos irmãos da terra, pedra, bicho, planta, gente, enfim
Pra que essa vida viva cuida bem de mim.


Vamos cuidar da natureza!





Escolhas, mudanças e vivências


Estava na dúvida sobre o que postaria desta vez. Tenho gostado tanto de escrever que minha mente se enche de idéias, fica difícil controlá-las, mas eu preferi falar das escolhas, mudanças e minhas vivências.

A capacidade de superação é conhecida pela forma como nos damos com a mudança.
Foi difícil, mas aprendi isso na raça.
Eu tinha uma vida, família por perto, amigos e toda uma vivência em minha cidade natal - Itabuna-Bahia, mas surgiu aos meus 13 anos, a idéia da família mudar-se. Eu rejeitei totalmente a idéia, batia o pé e não queria mesmo, deitava pra durmir e imaginava minha vida longe dali, eu chorava tanto, tinha tanto medo de não me acostumar à nova cultura. Não tive escolha, dia 14 de janeiro de 2006 partimos. A despedida na rodoviária foi a pior parte, nunca me esqueço da expressão da minha avó em lágrimas (meu coração partiu!). Já dentro do ônibus não havia mais nada a fazer do que torcer pra que tudo desse certo. Seguimos. Na noite do dia 16 chegamos ao nosso novo mundo - Guarujá-SP.

Cidade diferente. Estado diferente. Cultura diferente.
No começo foi muito difícil, chorava todas as noites com saudade de tudo e de todos. Me matruiculei numa escola daqui. Aí foi quando senti a maior difernça, eu detestava aquela escola, as pessoas me atormentavam, e falavam do meu sotaque nordestino e foi difícil de me acostumar. Mas nada como o tempo pra mudar tudo. Com toda a certeza o Tempo é o senhor da razão.
As coisas foram melhoram, eu fiz amizades, a Diane (Pops) me ajudou muito, talvez ela não tenha idéia do quanto. Eu fui me inserindo no meio ''caiçara'', aprendi as gírias locais. Me firmei.
Guarujá é mais saudosa do que uma dia imaginaria.
Aqui fui desenvolvendo traços fortes da minha personalidade.
Ganhei força e resistência, passei a enxergar a vida de um melhor ângulo ainda.
Me perdi e me encontrei. Meu sotaque ta quase extinto (rsrsr)
E é possível sim mudar e viver bem, a escolha é sua. Eu poderia ter me fechado, me revoltado por estar onde não queria, mas preferi e aprendi a abrir os braços e a aceitar o novo.
Hoje ainda sinto falta da minha família, sim, é inevitável. Mas tudo ficou numa lembrança boa, e de vez em quando vou visitá-los. Além da minha base - meus pais e irmãos tenho um tio e dois primos na cidade.
Me sinto feliz onde moro e hoje entendo que era meu destino vir pra cá. Encontrei na dificuldade da mudança a oportunidade de uma nova vida.


• Emilly Brito